quinta-feira, 23 de julho de 2015

Despetalada

Eu lembro de seu corpo se refestalando em mim. E é disso que eu me lembro. Não quero pensar em mais nada quando você, por detrás de todos, me olha dentro: seus pêlos se arrepiaram quando te naveguei naquela noite, e teu revolto mundo esvaiu como trágedia e calma dentro de minha boca...
Fora você que pediu silêncio e se esticou na minha cama, como se fosse minha, pegando mais um cigarro de meu maço, pedindo meu isqueiro verde-água, puxando o cinzeiro para si e rindo-se do que nunca soube.
Mas, de tudo, foram seus olhos - imensos olhos gulosos - que me engoliam e nada mais se podia dizer na noite que já acabava... Você escorria pelo lençol como liquido vivo, pingava no chão e passava os dedos pelos meus discos, como se estivesse tocando meu peito. Olhava-me fundo e ia excitando Macalé, Belchior, Assumpção, Holiday e João Gilberto... podre Joãzinho, seus dedos - de água - adoravam brincar por entre os veios dele. Se erguia ninfa e colocava ele, feito reliquia impar, no toca-discos, enquanto coçava as coxas, reclamando do novo pelo encravado que encontrará e fazendo malabarismo com o cigarro. Vez em quando, quando caia cinzas no chão ou a tomada se mostrava um pouco mais longe, esbaforava como que aquilo fosse a grande causa de todo o mal do mundo! Mas seu corpo era outro quando Joãozinho sussurava em seus ouvidos segredinhos de amor que só você entendia... virava, agora, fogo - tamanho o medo de ferir tocando. De repente o mundo era lugar absurdo e eu podia ver em seus olhos toda o caos que aquela paz lhe trazia! E chorava como nunca antes quando "Astronauta" tocava... e eu calado, o tempo todo. Sabia que tudo aquilo que Joãzinho te dizia era coisa tão intima, tão sua que de nada adiantaria eu te consolar com minhas palavras frouxas. Lembra que me deitava então ao seu lado e te cantava, bem ao pé do ouvido: - Meu pé-de-vento...
E via seu corpo, de novo, virar liquido vivo, viscoso e fértil... E você me fazia seu, eternamente na naquele misero raio de sol que rompia entre nosso sexo, você me tomava para si e pedia silêncio. E nos esforçavamos para gozar no último acorde, da última música...
E eu me levantava, tirava João Gilberto que rodava em vão, colocava "O Poeta e o Violão", acendia meu cigarro redentor e fumava enquanto você lutava para alcançar o interruptor e deixar tudo em completa suspensão. Só se ouvia Vinicius, Toquinho e seus sonzinhos: teus dedos todos a estralar, sua pele se desgrudando da minha, seu cabelo roçando meus travesseiros e podia ouvir seus olhos fugindo dos meus, enquanto refazia sua geografia, tentando entender no que seu corpo havia se tornado: cordilheira descomunal que se estendia pela singularidade daquele quarto esfumaçado e irriquieto. Apagava meu derradeiro cigarro no cinzeiro de madeira que deixava ao pé da cama - o de vidro era seu, com as bitucas marrons com aquele maldito cigarro barato que insiste ainda em fumar - e sentia toda sua fisonomia mudar: assim como liquido, evaporava para o meu espanto enquanto Vinicius cantava "Insensatez" e toda sua vida lhe tirava de si. Seu corpo ia minguando, fugindo, vaporoso por entre meus poros e lá me tragava toda força que poderia me restar. E eu lacrimejava de plena felicidade e paz, pois em minha ingenuidade era minha, era eu seu castelo e seu exercito, era, enfim, comigo que você dormia sonho infindo...
Mas agora, me olhando dentro, sei que tudo isso também lhe é vivido e presente e que se foge assim é porque uma gota de minha paixão morra em seu ventre e o cheiro estranho de suas lágrimas ainda impregnam meus lençois...
E João manda lembranças.

sábado, 18 de outubro de 2014

- Eu gosto de tempestades.
- Eu também! Acho que tudo fica mais bonito.
- Não é isso... Acho que elas fazem as pessoas realmente viverem. É tipo um acontecimento ruim na vida. De repente você acorda da rotina, daquele estado catatônico. Tenta perceber isso, dias de chuvas fortes parecem dias mais reais que os outros...

Her

Ela é um conceito. Dito isso, tudo será possivel de ser real.

Amar é condição primeira de estar vivo. Dor é fascinio e alucinação. Não gosto de quem acha que vivemos pra sofrer. Sofremos a maior parte do tempo? Sim! Mas não pelo fato de viver. As coisas - e quando digo "coisas" estou dizendo todas as coisas - fazem a existencia ser sofrivel. Antes de tudo, é preciso amar, por que amar é instinto.
Essencialista? Sim, e muito. Montaigne acreditava que a essencia nunca será alcançada porque estamos todos cheios de sociedade demais. Mas ela existe! Acho que nosso impulso mais primitivo é esse, nos juntarmos. De todos os animais que sentem a solidão, o ser humano é o mais solitário. Precisamos um do outro quase que sempre. Não há sentido sem o outro.
Por isso Ela é um conceito. Substituimos o conceito de Deus, pelo conceito d'Ela, ou d'Ele.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A poesia conseguiu me desmanchar, finalmente. Não é culpa do ato poético em si, porém, mas sim da estrutura basica do estado de poesia - ao menos o meu. Sou poeta de 45, tomado pelo idos dos marginais, que desembocam na flexibilidade e diluição de uma poesia contemporanea chata: tento achar meu lugar decisivo, sabendo que não o quererei para sempre e que ele, por fim, não existe.

Meu lugar, qual o é? - comecemos por aqui...
Se sou sujeito fugidio é porque eu entendo o mundo de maneira unica. Todos entendemos. O que a alienação - por falta de palavra melhor - faz com o subjetivo é entorpece-lo e silencia-lo muitas vezes.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Sem pique

Ver Woody Allen me lembra dos momentos esparsos das minhas paixões. Me trnasformo, claro, na faceta que ele escolheu expressar e coloco as minhas infinitas paixões no inumeros personagens que vão desfilando na tela. "Stardust Memories" é uma melancolica ode à Natalia. "Husbands and Wives", obviamente, Bruna. "Annie Hall", como não poderia deixar de ser, Clara. "Vicky Cristina e Barcelona" a deliciosa Maria, e por ai vai.
Woody me entendeu antes mesmo de eu me entender e o cinema que ele faz/fez é parte de um processo de construção do meu eu. Além disso o Zyg tinha razão, ou melhor, o Deleuze: o cinema é uma forma de pensar. É uma forma d'eu pensar, pelo menos.

Gosto de escrever em prosa por aqui sou mais livre. Não precisa pensar num excessivo e original estado de poesia e ficar me comparando aos amigos que se aventuram pela poesia também. "Os idolos são só meus, só eu os entendo!" É assim com os Beatles, Vinicius ( o mais problemático deles ) e agora Woody Allen. Ele tinha se acalmado na minha percepção das coisas, o cinema parecia chato de novo, cheio das tantas pretensões. Mas ele consegue fazer tanto, com tanta delicadeza e beleza... Queria escrever poesias desse jeito. Delicadas e bonitas, e ainda assim revolucionarias. Quem não gostaria?!

Preciso voltar mais vezes aqui, agora que descobri esse lugar como um bom lugar: poucos o conhecem, então terei sempre a sensação de que alguém, um dia poderá ler tudo isso; o titulo disso, apesar de pretensioso, chato e avant-garde, diz tudo; liberdade é o que eu sinto mais falta nesses dias sem sentido...
Afinal de contas, um cigarro cairia bem agora e uisque salvaria a manhã!

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

(A)migo IV

Tudo está se dissolvendo, Pedro...
e a culpa é minha!

Teus olhos amargos
e o corpo dela em sua cama,
Teus dedos estáticos
e a voz dela em seu ouvido,
Teus sonhos brilhando
e os dela também!

Tudo me faz pensar
na noite da nossa solidão
em que sua voz virou minha cantiga de ninar
E minha paz estava restrita
ao som do ar
deixando e entrando em seu corpo.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

(A)migo III

Eu não sou uma pessoa feliz, mas fui criado para ser. Meus pais nasceram pobres e morrerão ricos. Eles conseguiram tudo juntos e se amam incondicionalmente, na medida em que incondicional é possível. Aos dez anos eu procurava meu grande amor, aos treze minha carreira profissional e aos quinze eu enfrentei meu maior medo: Errar.
Eu não sou uma pessoa feliz, mas fui criado para ser, e estava feliz – e muito! Acontece que o mundo precisou me ensinar muitas coisas. Minha família é o padrão da família convencional: Pai e mãe ainda casados, irmãos saudáveis e alegres, uma casa grande e sem problemas com o dinheiro. Os seus obstáculos foram ultrapassados com muita fé em Deus e amor pela vida. Problemas idênticos a todos.
Eu não sou uma pessoa feliz, mas fui criado para ser. Aos dezessete anos eu conheci, finalmente, o mundo. Aprendi a não chorar para se preservar e aprendi a entender a dor. Eu entrei na faculdade feliz, e sairei dela triste. Não há nada em mim. Sou um vazio cheio de palavras na boca. Sou uma criança brincando de viver.
Eu não sou uma pessoa feliz, mas fui criado para ser. Eu tenho medo. Muito medo. Muito. Muito...
Eu não sou uma pessoa feliz, mas fui criado para ser. Eu não estou realmente apaixonado por ninguém. Eu amei e foi uma merda. Eu não sei oque eu quero fazer o resto da minha vida. Minha família não consegue ter um conversa decente na hora do almoço. Ninguém, absolutamente ninguém, jamais me entendeu, entenderá, ou tentou entender.
Eu não sou uma pessoa feliz, mas fui criado para ser. Tenho muitos amigos. Tive poucos, depois tive mais do que deveria, depois tive poucos realmente importantes e agora tenho carinho por todos, e amor por poucos. Um amor sincero e medroso. Mas meu melhor amigo não consegue me ajudar por que está afundado em si mesmo, procurando se encontrar. Seus dois amores são pessoas complicadas demais e eu estou apaixonado pela única entre as duas que poderia dar certo com ele. Eu me odeio por isso.
Eu não sou uma pessoa feliz, mas fui criado para ser. Escrevo mentiras, todas às vezes! (Não duvido nada que tudo isso, amanhã, me pareça nojento e mentiroso). Eu tenho autoestima baixa, medo de me relacionar.
Eu não sou uma pessoa feliz, mas fui criado para ser. Mas meu maior sonho é casar, ter filhos e cria-los da mesma forma em que eu fui: socando felicidade goela a baixo.
Meu maior medo? Estou entre a solidão e nunca ser feliz, mas pra mim o primeiro sempre traz o segundo.

Happiness is a Warm Gun