Eu lembro de seu corpo se refestalando em mim. E é disso que eu me lembro. Não quero pensar em mais nada quando você, por detrás de todos, me olha dentro: seus pêlos se arrepiaram quando te naveguei naquela noite, e teu revolto mundo esvaiu como trágedia e calma dentro de minha boca...
Fora você que pediu silêncio e se esticou na minha cama, como se fosse minha, pegando mais um cigarro de meu maço, pedindo meu isqueiro verde-água, puxando o cinzeiro para si e rindo-se do que nunca soube.
Mas, de tudo, foram seus olhos - imensos olhos gulosos - que me engoliam e nada mais se podia dizer na noite que já acabava... Você escorria pelo lençol como liquido vivo, pingava no chão e passava os dedos pelos meus discos, como se estivesse tocando meu peito. Olhava-me fundo e ia excitando Macalé, Belchior, Assumpção, Holiday e João Gilberto... podre Joãzinho, seus dedos - de água - adoravam brincar por entre os veios dele. Se erguia ninfa e colocava ele, feito reliquia impar, no toca-discos, enquanto coçava as coxas, reclamando do novo pelo encravado que encontrará e fazendo malabarismo com o cigarro. Vez em quando, quando caia cinzas no chão ou a tomada se mostrava um pouco mais longe, esbaforava como que aquilo fosse a grande causa de todo o mal do mundo! Mas seu corpo era outro quando Joãozinho sussurava em seus ouvidos segredinhos de amor que só você entendia... virava, agora, fogo - tamanho o medo de ferir tocando. De repente o mundo era lugar absurdo e eu podia ver em seus olhos toda o caos que aquela paz lhe trazia! E chorava como nunca antes quando "Astronauta" tocava... e eu calado, o tempo todo. Sabia que tudo aquilo que Joãzinho te dizia era coisa tão intima, tão sua que de nada adiantaria eu te consolar com minhas palavras frouxas. Lembra que me deitava então ao seu lado e te cantava, bem ao pé do ouvido: - Meu pé-de-vento...
E via seu corpo, de novo, virar liquido vivo, viscoso e fértil... E você me fazia seu, eternamente na naquele misero raio de sol que rompia entre nosso sexo, você me tomava para si e pedia silêncio. E nos esforçavamos para gozar no último acorde, da última música...
E eu me levantava, tirava João Gilberto que rodava em vão, colocava "O Poeta e o Violão", acendia meu cigarro redentor e fumava enquanto você lutava para alcançar o interruptor e deixar tudo em completa suspensão. Só se ouvia Vinicius, Toquinho e seus sonzinhos: teus dedos todos a estralar, sua pele se desgrudando da minha, seu cabelo roçando meus travesseiros e podia ouvir seus olhos fugindo dos meus, enquanto refazia sua geografia, tentando entender no que seu corpo havia se tornado: cordilheira descomunal que se estendia pela singularidade daquele quarto esfumaçado e irriquieto. Apagava meu derradeiro cigarro no cinzeiro de madeira que deixava ao pé da cama - o de vidro era seu, com as bitucas marrons com aquele maldito cigarro barato que insiste ainda em fumar - e sentia toda sua fisonomia mudar: assim como liquido, evaporava para o meu espanto enquanto Vinicius cantava "Insensatez" e toda sua vida lhe tirava de si. Seu corpo ia minguando, fugindo, vaporoso por entre meus poros e lá me tragava toda força que poderia me restar. E eu lacrimejava de plena felicidade e paz, pois em minha ingenuidade era minha, era eu seu castelo e seu exercito, era, enfim, comigo que você dormia sonho infindo...
Mas agora, me olhando dentro, sei que tudo isso também lhe é vivido e presente e que se foge assim é porque uma gota de minha paixão morra em seu ventre e o cheiro estranho de suas lágrimas ainda impregnam meus lençois...
E João manda lembranças.